sábado, 4 de fevereiro de 2012

Você acredita em fadas? - Parte I

Quando era criança, por volta dos meus 6 anos, acreditava em fadas tanto quanto uma menina podia acreditar. Eu não sabia porque acreditava, normalmente, nessa idade, as pessoas (ou projetos de pessoas) não pensam muito se é verdade ou não, mas apenas acreditam, com todas as forças, que fadas são pequenos seres encantados que vivem na floresta e cuidam da natureza de um modo geral. 
Enfim, dada a explicação de tanta ingenuidade, posso começar a contar minha estória, ou melhor, minha história, pois posso lhes assegurar que tudo que irei falar realmente aconteceu. 
Sou Lucy, escritora e jornalista, tenho 20 anos e creio que muitas pessoas não vão acreditar no que estou prestes a falar, mas nunca fui muito de me intmidar. Enfim, foda-se, irei contar mesmo assim. 
"Era uma tarde quente e monótona de verão, como todas as outras, e, lá estava eu, deitada debaixo da sombra de uma árvore, com um livro de mitologia grega em mãos, intitulado 'Ninfas'.
Deitada ali, naquela grama verdinha, minha imaginação voava enquanto via aquelas gravuras de belas mulheres semi nuas, todas delicadas, de cabelos longos e sedosos e tiaras de flores.
Eu não sabia ler, mas adorava pegar os livros de minha vó, no nosso chalé e levá-los para ver as figuras em algum lugar distante de todos.
Sem perceber a aproximação de minha prima Lourdes, continuei a devagar, quando fui interrompida por seu pigarro.
- Caham. Prima, o que está fazendo?
- Ah, olá Lourdes. Eu estava vendo as figuras desse livro que peguei na estante da vovó. - respondi, mostrando a capa do livro.
Lourdes tinha 15 anos, era muito espontânea, alegre e delicada... ao contrário de mim. Eu era tímida, chorona e um tanto desajeitada. Gostava muito de minha prima pois ela me entendia. Ela aceitava minhas loucuras e acreditava em tudo que eu falasse, mesmo sendo a mais pura bobagem. Lourdes sabia muito sobre Mitologia Celta, Nórdica e Grega, era fissurada e transmitia todo o seu conhecimento para mim. Quando não estava fazendo tortas, geleias e biscoitos com a minha vó ou cuidando das tarefas de casa, estava comigo, me ensinando sobre ninfas, fadas, nixes e duendes... os seres mitológicos de que eu mais gostava.
Ela se sentou ao meu lado, tirando de dentro de uma cesta que carregava, geleia de laranja e duas colheres.
- Hoje, - ela começou a falar, me passando um colher e abrindo o pote de geleia - irei te falar um pouco mais sobre as ninfas, já que estava tão entretida em seu livro. Você lembra o que são ninfas, não?
- Sim, lembro. São fadas sem asas, delicadas e leves.
- Isso. Bom, as ninfas são divididas em várias classes. Mas na minha opinião, as mais interessantes são as Epigéias, ninfas da terra e as Efidríades, que são as ninfas da água. Dessas duas classes surgem muitas outras, como as Leimáquides, que vivem em campos e prados e as Potâmides que vivem nos rios.
- Epigéias, Efidríades, Leimáquides e Potâmides... ok! - repeti para memorizar.
Continuamos a conversar a tarde inteira, discutindo a beleza das ninfas, dando uma olhada nas imagens de meu livro e finalmente, quando o sol já estava se pondo, fomos para o chalé.
Ao chegar fui até a estante, no quarto de minha avó, devolver o livro que havia pego. Subi as escadas e bati na porta do quarto.
- Lucy, venha jantar, chame a vovó - gritou Lourdes.
Entrei no quarto de minha avó, já que ninguém respondia, pensei que ela pudesse estar dormindo.
E lá estava ela, deitada na poltrona, dormindo feito pedra.
- Vovó? - chamei, cutucando seu braço.
Nada.
- Vó! Tá na hora do jantar, vamos, estou com fome - chacoalhei seu ombro e nada novamente.
- Lucy, está tudo bem? Não ouviu eu chamar para o jantar? - Lourdes entrou no quarto com um avental e uma colher na mão.
- Eu escutei prima. Estava apenas tentando acordar a vovó.
Ela deu uma olhada na minha avó e deixou a colher cair no chão. Sua expressão de repente mudou, de alegre para tensa. Ela se aproximou de mim, afagou minha cabeça e apenas disse:
- Deixe comigo querida, desça. Sua comida está no prato."

Antes daquele dia, morte para mim era algo desconhecido, apesar dos meus pais terem morrido (minha mãe no parto e meu pai de pneumonia). Quando perguntava porque todas as minhas amigas tinham pais, menos eu, minha avó me dizia que eles tinham viajado para longe e que quando eu crescesse voltariam e  trariam muitos presentes para mim.
Eu só tinha a minha prima a partir daquele momento, o que nos fez ficar ainda mais unidas... ela cuidando de mim e eu cuidando dela, mas, sinto que parte da minha inocência se foi, ao saber o que realmente era a morte. 
A morte para mim era um vazio, que nunca seria preenchido. Eu não chorava porque não entendia o motivo das pessoas terem de ir, de me deixar, sem ao menos dar tchau ou um abraço apertado. Não ligava se elas quisessem partir, mas, gostaria de ter dito à minha avó que, o cachecol que ela havia perdido, estava no meu quarto o tempo todo, sendo usado como cobertor para as minhas bonecas de pano.

Continua...

Por Is Angelotti


"Você acredita em fadas?" é um conto baseado na Mitologia Grega, Celta e Nórdica. Nessa estória você verá muitos seres e até poderá reconhecer alguns deles, se, alguma vez, você já se aventurou na leitura sobre o mundo da mitologia (seja ela qual for).